“ Aqui, onde o coração reclama uma pátria melhor,
volto ao lugar das palavras que nunca calei, por saber
que o silêncio se articula na errância da voz e que nele cabe
a solidária multidão que ama, por inteiro, a liberdade.
A boca sabe-me, inesperadamente, a sangue, em nome
daqueles que desistiram do sonho, sem remorsos, à margem
da esperança. Tardei a encontrar o exótico perfume
com que alucinei os dias e as noites, onde, de um trago só,
bebi a própria sede, guardada no barro da memória.
Agora, sou dos que medem o desassossego dos lábios pelo silente
sobrevoar dos pássaros, rente à coragem ou às lágrimas.
As minhas mãos se dão com a inquieta força de quem vive
ancorado ao fascínio de ter no olhar um horizonte livre,
tão límpido, como a luz transfigurada das manhãs."
GRAÇA PIRES, poetisa portuguesa (1946-), in "Poemas escolhidos 1990-2011"
(imagem Pinterest)