“Todos os anos, a 16 Agosto, Ana Magdalena Bach apanha o ferry que a leva até à ilha onde a mãe está enterrada, para visitar o seu túmulo. Estas viagens acabam por ser um convite irresistível para se tornar uma pessoa diferente durante uma noite por ano. Ana é casada e feliz há vinte e sete anos…”
“- Posso oferecer-lhe uma bebida?
- Seria um prazer – respondeu ela.
Ele passou para a mesa dela e serviu-lhe uma bebida com muito bom estilo.
- Saúde – disse.
Ela fez coro com ele e ambos beberam de um trago.
(…)
Subimos?
Ele tinha perdido o poder.
- Eu não moro aqui – disse.
Ela não esperou sequer que ele acabasse de o dizer.
- Mas moro eu – disse, e levantou-se e sacudiu levemente a cabeça para a dominar.
- Segundo piso, número 204, à direita das escadas. Não toque, é só empurrar.
Subiu para o quarto com o terror delicioso que não voltara a sentir desde a noite de núpcias. (…)
O seu horário natural despertou-a às seis horas. (…) ele não estava. (…) Só então se apercebeu de que não sabia nada dele, nem sequer o nome, e a única coisa que lhe restava da sua noite louca era um triste cheiro a lavanda no ar purificado da tormenta."
"Nunca mais voltaria a ser a mesma."
"(…) foram-lhe necessários vários dias para tomar consciência... de que andara sempre pela vida sem a ver.”
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, escritor colombiano (1928. 2014), in “Vemo-nos em Agosto”, Ed. Dom Quixote, 2024
Prémio Nobel de Literatura, 1982Confesso: tive muita dificuldade em encontrar o estilo exuberante, fascinante, inconfundível de Gabriel García Márquez, nas 116 páginas deste romance. Li apenas mais uma história. Com a diferença de esta ser publicada à revelia de um dos maiores escritores de sempre, que antes de morrer expressou o desejo de que fosse queimada, por falta de qualidade.
(Foto Pixabay: gladíolos )
