10 junho, 2024

Pétala nº 3821

“Somos todos filhos da terra.”
(Abdulrazak Gurnah, in "Junto ao mar")


“Falo com os mapas. E às vezes eles respondem-me. Não é tão estranho quanto parece, nem é tão-pouco inaudito. Antes da existência dos mapas, o mundo era ilimitado. Foram os mapas que lhe deram a forma e o aspecto de um território, de uma coisa que podia ser possuída, e não apenas arrasada e saqueada. Os mapas tornaram os lugares na orla da imaginação alcançáveis e domesticáveis. E, mais tarde, quando essa necessidade surgiu, a geografia transformou-se em biologia, para construir a hierarquia com a qual seria possível identificar os povos que, inacessíveis e primitivos, viviam noutros sítios do mapa.” 

“Sou um refugiado, um requerente de asilo. Não são palavras simples, ainda que o hábito de as ouvirmos assim as façam parecer. (…) É um pequeno clímax comum nas nossas histórias, abandonar o que conhecemos e chegar a lugares estranhos, carregando fragmentos de bagagem desirmanada e reprimindo ambições secretas e incompreensíveis. (…) O que sabemos puxa-nos constantemente para o que não sabemos…

ABDULRAZAK GURNAH, escritor nascido em Zanzibar, em 1948, a viver em Inglaterra desde a década de 1960, in “Junto ao mar”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022 
Prémio Nobel da Literatura, 2021


A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
D' ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

LUÍS VAZ DE CAMÕES, poeta português (1524-80)
"Fala do Velho do Restelo", de OS LUSÍADAS


Boa semana! 

(fotos net)

03 junho, 2024

Pétala nº 3820


“Todos os anos, a 16 Agosto, Ana Magdalena Bach apanha o ferry que a leva até à ilha onde a mãe está enterrada, para visitar o seu túmulo. Estas viagens acabam por ser um convite irresistível para se tornar uma pessoa diferente durante uma noite por ano. Ana é casada e feliz há vinte e sete anos…” 

 “- Posso oferecer-lhe uma bebida? 
 - Seria um prazer – respondeu ela. 
Ele passou para a mesa dela e serviu-lhe uma bebida com muito bom estilo. 
- Saúde – disse. 
Ela fez coro com ele e ambos beberam de um trago. 
(…) 
Subimos? 
Ele tinha perdido o poder. 
- Eu não moro aqui – disse. 
Ela não esperou sequer que ele acabasse de o dizer. 
- Mas moro eu – disse, e levantou-se e sacudiu levemente a cabeça para a dominar. 
- Segundo piso, número 204, à direita das escadas. Não toque, é só empurrar. 
Subiu para o quarto com o terror delicioso que não voltara a sentir desde a noite de núpcias. (…) 
O seu horário natural despertou-a às seis horas. (…) ele não estava. (…) Só então se apercebeu de que não sabia nada dele, nem sequer o nome, e a única coisa que lhe restava da sua noite louca era um triste cheiro a lavanda no ar purificado da tormenta."
 
"Nunca mais voltaria a ser a mesma."
"(…) foram-lhe necessários vários dias para tomar consciência... de que andara sempre pela vida sem a ver.

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, escritor colombiano (1928. 2014), in “Vemo-nos em Agosto”, Ed. Dom Quixote, 2024
Prémio Nobel de Literatura, 1982


Confesso: tive muita dificuldade em encontrar o estilo exuberante, fascinante, inconfundível de Gabriel García Márquez, nas 116 páginas deste romance. Li apenas mais uma história. Com a diferença de esta ser publicada à revelia de um dos maiores escritores de sempre, que antes de morrer expressou o desejo de que fosse queimada, por falta de qualidade.

(foto Pixabay: gladíolos )


27 maio, 2024

Pétala nº 3819

"Para onde nos atrai o azul?"
(João Guimarães Rosa)










DESAFIO, em tons de Azul
Hoje a pétala é sua! 
Busque inspiração numa imagem e solte a imaginação.
Antecipadamente, eu agradeço. 💙

Fotos:
1ª, 2ª, 3ª Porto Santo, 2023
4ª, 5ª Cuba/Varadero, 2023
Maldivas, 2022
7ª, 8ª Cascais,2022
Madeira, 2010

Boa semana!


20 maio, 2024

Pétala nº 3818

"ver o Diferente, ver o Semelhante"


“Duas pedras que nos parecem iguais são bem distintas para um geólogo, dois gémeos que nos parecem iguais, são bem distintos para a mãe que os ama (...)

O pensamento mais completo é aquele que diante dos factos, dos acontecimentos e das várias coisas que existem no mundo, conseguem perceber as inúmeras diferenças e as inúmeras semelhanças.(...)"


"No diário de um dos grandes filósofos do século XX, Cioran, ele escreve: “Que seria eu, que faria eu sem as nuvens?
Uma bela pergunta.
Cioran depois acrescenta: Passo a maior parte dos dias vendo as nuvens passar.”
As nuvens que, para algumas pessoas, são todas iguais e por isso aborrecem; e as nuvens que, para algumas pessoas, são todas diferentes e, por isso, entusiasmam."

"Estar vivo, em parte, não é fácil, porque muitas vezes se instala a ideia de que tudo é apenas uma repetição: comer de novo, e de novo lavar o prato; de novo o sol – e tudo o que se repete debaixo dele – e, de novo, as nuvens. 
Conseguir encontrar entusiasmo nas semelhanças e conseguir encontrar entusiasmo nas diferenças, eis o difícil.”

GONÇALO M. TAVARES, professor e escritor português (1970-), in crónica “Moscas e nuvens – ver o diferente, ver o semelhante”, revista "E", jornal Expresso, 3 Março 2023
EMIL CIORAN, filósofo, escritor romeno, radicalizado em França (1911-95)

Fotos de duas amigas:
Chica: "Céu e palavras"
Roselia:  "Amor azul"


13 maio, 2024

Pétala nº 3817

"O inalcançável é sempre azul."
(Clarice Lispector)

“O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta.”
Versos de Alberto Caeiro, heterônimo de FERNANDO PESSOA poeta português (1888-1935), 
in "Antologia poética ("O guardador de rebanhos XXIII"), R.B.A. Editores, 1994

"Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu".
Versos de FERNANDO PESSOAin "Mensagem".

(Pétala deixada em comentário pela amiga OLINDA MELO, http://xailedeseda.blogspot.com/.)

"Quando o sossego é só sossego e a visão do mar espraia a nossa
identidade
sentimo-nos cúmplices da terra na densidade azul"

ANTÓNIO RAMOS ROSA, poeta português (1924-2013), in “Poesia presente”, Ed. Assírio &Alvim, 2014


“Água, sal e vontade – a vida!
Azul – a cor do céu e da inocência”

MIGUEL TORGA, poeta português (1907-95), in "Poesia completa" (versos do poema "Ao Mar"), Ed. Dom Quixote, 2000


“bebo o azul do céu pelos olhos”

PABLO NERUDA, poeta chileno (1904-73), in "Crepusculário" (verso do poema "O povoado"), 1923 
Prémio Nobel da Literatura, 1971


"Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul."

CLARICE LISPECTOR, escritora e jornalista brasileira nascida na Ucrânia (1920-77)


(Fotos: PORTUGAL/Cascais, 2024)

Boa semana!

05 maio, 2024

Pétala nº 3816

"Deus espera na escuridão."
(Valter Hugo Mãe))


Deus é exactamente como as mães. Liberta seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos. 
Deus é exactamente como são as mães, que criam e depois vão ficando para trás, numa distância que parece significar que não são mais precisas, e Ele, como elas, só sabe amar acima de qualquer defeito e qualquer falha, com cada vez mais saudade, mas não sabe o caminho, não sabe por onde os filhos foram, só pode suplicar que não se percam e não se percam da vontade de voltar. (…)

Deus como as mães, corre os dias inteiros à janela e escuta. Qualquer bulício Lhe acelera o coração. Se existem passos em redor de Sua casa, se alguma voz o  chama, palpita como doido de alegria na esperança de ter um filho em visita. (…) 
Exactamente como as mães, Deus cozinha seus pratos favoritos e acredita que agora ficarão para sempre ou, ao menos, regressarão todos os fins-de-semana, todos os meses, que não vão ficar separados, sem notícias tanto tempo, porque dói demasiado. (…)
Deus, como são as mães, tem a impressão que vai morrer se não voltar a ver os filhos. (…)
 
“Todos deveríamos amar como amam as mães, que julgo ser como Deus ama.”

VALTER HUGO MÃE, escritor português (1971-), in “Deus na escuridão”, Porto Editora, 2024



2ª foto: net

29 abril, 2024

Pétala nº 3815


“Ler, uma actividade em extinção, por muito que as livrarias estejam cheias de feéricas capas, por muito que se diga a gigantesca asneira de que ler num ecrã de telemóvel é o mesmo que num livro (experimentem a Montanha Mágica ou a Guerra e Paz…), ou que a “geração mais preparada” pode fazer um curso superior sem ler um livro (bem, dois, três e já é muito), e por aí adiante. 
Falar e escrever bem também estão em extinção, com a redução do vocabulário circulante a puco mais do que os antigos 140 caracteres do Twitter, agora 280 no X, o que vai dar ao mesmo - a enorme dificuldade de expressão que se vê todos os dias e por todo o lado.
Qual é o problema? É que quem não lê, não fala e não escreve decentemente, é menos livre, mais facilmente manipulado, menos eficaz em coisa alguma importante, mais fácil de ser mandado e de não mandar nem em si próprio. Ou seja, repito, menos livre. (…)
 
Na verdade, quem defende esta nova forma de ignorância agressiva e de deslumbramento tecnológico não são os novos ignorantes, mas os antigos ignorantes, a quem as redes sociais dão uma ilusão de igualdade e presunção de saber que transporta todos os preconceitos da ignorância com o ressentimento em relação ao saber e ao esforço de saber. São a forma actual do anti-intelectualismo trasvestido de modernidade, cujos estragos na educação, no jornalismo, na sociedade, na cultura e na política são devastadores (…)
É que ler é entrar em todos os mundos, alegres e sinistros, apaziguadores e violentos, nossos e alheios, e que nunca acabam.” 

JOSÉ PACHECO PEREIRA, licenciado em Filosofia, historiador, professor universitário, cronista e político português (1949-), in crónica “Porque é que ler conta e muito, para a liberdade”, jornal Público, 9 Março 2024


(fotos Pixabay)

22 abril, 2024

Pétala nº 3814

"Acuso!, protesto!, acuso!
De que me vale?"
(José Régio)


CÃNTICO NEGRO

Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas nossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como a um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pais, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah! que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!

JOSÉ RÉGIO (pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira), nasceu em Vila do Conde, em Setembro de 1901. Foi professor, escritor e desenhador. Faleceu em Dezembro de 1969.
Poemas de Deus e do Diabo”, o seu primeiro livro de versos, foi publicado em 1925, era ainda estudante do curso de filologia românica, em Coimbra. A maioria dos poemas do livro foi escrita na adolescência.
No posfácio da edição de 1969 escreveu:
"Um escritor presente à cena literária durante mais de quarenta anos – acha riquíssimas oportunidades de observação no palco, na plateia, nos bastidores. E várias coisas que de momento lhe haviam interessado vivamente – a quase só fumarada e algazarra se lhe reduzem depois. Claro que não tem que se arrepender. Sem a faculdade da ilusão, que movimento e que acções nos seriam possíveis? Só tem que aprender. E até continuar a enganar-se, a iludir-se, a errar, a tactear, se para verdadeiramente continuar a aprender lhe for isso necessário. (…)
Não me arrependo das polémicas em que tenho entrado: umas vezes provocadas por mim, outras desafiado por elas.(…)
Se o polemista não está de todo cego, ou o não é sem remédio, até na polémica pode dizer coisas interessantes, inteligentes ou justas de parte a parte."


(fotos net)

15 abril, 2024

Pétala nº 3813

"Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!"
(Florbela Espanca)


“Falo com a vida como se estivesse a falar com uma pessoa, com um anjo ou com Deus. Torno-a numa entidade com quem se fala.” 
JORGE PALMA, músico, compositor e cantor português (1950-), em entrevista a Nuno Pacheco, revista Ípsilon, jornal Publico, 28 Abril 2023 

“Tenho duvidado da existência de Deus: os adultos mentem sempre, e foram eles que me falaram da existência de Deus.” 
SILVINA OCAMPO, escritora argentina (1903-93), in “As Convidadas - O diário de Porfiria Bernal”, Ed. Antígona, 2022” 

“… se acreditasse em Deus, não quereria prostrar-me à frente dele e pedir-lhe perdão. Limitar-me-ia a agradecer-lhe todos os dias, por tudo.” 
SALLY ROONEY, escritora irlandesa (1991-), in "Mundo Belo, onde Estás" (Beautiful World, Where Are You, 2021), Ed. Relógio D'Água, 2021 

"Eu acho que Deus é uma projeção humana, é um desejo infinito que nós temos de adoração, e de algo que nos suspende com o sentido absoluto."
ADÉLIA PRADO, filósofa, professora, contista e poetisa brasileira (1935-) 



Aos olhos dele

Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa;
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda a gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m'encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

FLORBELA ESPANCA, poetisa portuguesa (1894-1930)

(fotos Pixabay)

08 abril, 2024

Pétala nº 3812

“… gelado de chocolate e framboesa. Pura felicidade.”
(Valérie Perrin, in "os esquecidos de domingo")


“Existem vários mitos em torno do conceito de felicidade. O ter dinheiro, sucesso profissional, mais recentemente, nalguns jovens, ser famoso. Mesmo a velha frase ser rico não dá felicidade, mas ajuda muito, não é verdadeira. O contrário é bem mais real. A pobreza raramente está relacionada com a felicidade, porque a falta de bens materiais, implica frequentemente falta de saúde, que é um dos indicadores de felicidade.”

“Então, como é que eu posso ser feliz?
(…) vale a pena pensar sobre a importância de cultivarmos a relação com os outros. (…) Com os amores, com a família, com a senhora ou com o homem da caixa do supermercado, com quem nos serve o café todos os dias. Viajar, comer bem, conhecer sítios bonitos é bom, mas contribui muito pouco para a nossa felicidade."

O mais importante na vida e que gera mais felicidade e infelicidade, são as relações que temos e as formas como as vivemos.

JOSÉ GAMEIRO, psiquiatra português (1949-), in ensaio “A receita para a felicidade”, publicado na revista "E", do jornal Expresso, 5 Maio 2023

Felicidade não há.
Creio no contentamento,
Na alegria e o intento
De ser feliz. O maná
Não cai do céu, nem virá
Como a graça do divino,
O ser busca pelo tino
Um algo transcendental
Que só virá no final
Da vida, como destino.

(Comentário, Pétala nº 3710)

(fotos net)

01 abril, 2024

Pétala nº 3811

"O tempo existe e tem som."


“Nas aldeias, ou nas cidades, nas casas perto das igrejas, o som dos sinos que assinalam a passagem das horas ainda resiste – e por vezes incomoda um pouco, mas sim, impõe respeito. O tempo existe e tem som."

“… para os distraídos do mundo, uma possível oferta: um relógio que em vez de emitir um tic-tac constante ou em vez do som de um pássaro, que hora a hora nos faça saltar de susto pelo volume sonoro e não pelo conteúdo da mensagem, em vez disso, ter um relógio que murmure, alternadamente duas frases:
- não te esqueças que vais morrer 
- não te esqueças de viver 
Duas frases que estão evidentemente ligadas e de que muitos filósofos já falaram com detalhe. Imaginar, então, um relógio que, por exemplo, a cada 30 minutos diga a frase “não te esqueças que vais morrer” e a cada 15 minutos a frase “não te esqueças de viver”. Cada pessoa poderia, claro, manipular a frequência das duas frases de acordo com o seu gosto privado, no limite ficando apenas, por exemplo, com a frase “não te esqueças de viver” a ser ouvida a cada hora. Um relógio cuja passagem do tempo seja assinalada com frases sábias.“ 

GONÇALO M. TAVARES, professor e escritor português (1970-), in crónica “O som que o tempo faz quando muda o ano”, revista "E", jornal Expresso, 5 Janeiro 2024



PORTUGAL / Aldeia histórica do Piódão, fotos daqui.


Obrigada Luis, pela linda flor primaveril.
 Ao amigo poeta / pintor, desejo uma feliz e inspiradora Primavera.


25 março, 2024

Pétala nº 3810

"The art of losing isn’t hard to master"
(Elizabeth Bishop, primeiro verso do poema "One Art", 1976)


“Nascemos e morremos nus. Chegamos e partimos de mãos vazias. Gosto muito do poema de Elizabeth Bishop em que ela descreve a vida como «arte de perder». Tem razão. Perder, desprender, desaprender. Aprender a fazer isso o melhor que possamos. Aprender a desaprender, como o mestre Alberto Caeiro. (…) A vida tem isto de paradoxal: somar por somar redunda num diminuir grotesco. O verdadeiro somar, a ampliação efetiva da vida passa pela aceitação de diminuir, de tornar-se pequeno, de ser o último, de servir.”

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, teólogo e poeta português (1965-) em entrevista a Christiana Martins, publicada na revista "E", do jornal Expresso de 22 Dezembro 2023

Leia o poema de Elizabeth Bishop: aqui.


O GUARDADOR DE REBANHOS

XXI
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamam estrelas e flores.

Versos de Alberto Caeiro, heterônimo de FERNANDO PESSOA poeta português (1888-1935), 
in "Antologia poética", R.B.A. Editores, 1994


(fotos net: flor dente-de-leão)

Desejo-lhe uma Santa e doce Páscoa. 



18 março, 2024

Pétala nº 3809

"O amor! Que imenso mar!"
(Antero de Quental, in "Primaveras românticas")

 

Coisa amar  (excerto)
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor de fixação (excerto)
Há um caminho marítimo no meu gostar de ti.
Há um porto por achar no verbo amar
há um demandar um longe que é aqui.
E o meu gostar de ti é este mar.

MANUEL ALEGRE, poeta e político português (1936-)


Súplica (excerto)
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

MIGUEL TORGA, poeta português (1907-95), in "Poesia completa", Ed. Dom Quixote, 2000


“Andar sem amor pela vida é como (...) fazer-se ao mar sem estrela-guia.”

STENDHALescritor francês (1783-1842) 



(Fotos: PORTUGAL/Porto Santo, 2023)

11 março, 2024

Pétala nº 3808

Pessoa, pessoas, pessoas...


“Será que algumas pessoas não conseguem ver para além daquilo que se lhes coloca à frente?” 

"… as pessoas seguem o seu caminho sem se encontrarem, se o vento do destino não as unir.”

“As pessoas podem amar-se e, no entanto, perder-se.” 

BERNHARD SCHLINK , escritor alemão (1944-), in “A Neta”, Ed. ASA, 2023


“O número de pessoas que conhecemos em profundidade é estranhamente escasso.” 

“Todos somos capazes de pensar em pessoas que usam a simplicidade fabricada ou artificial como modo de passar pelo mundo.” 

JULIAN BARNES, escritor inglês (1946-), in “Elizabeth Finch”, Ed. Quetzal, 2022


“Há pessoas que possuem uma afetividade falsa, pessoas muito pobres de sentimentos que fingem ser afeto. Esses são intitulados «artistas da vida».”

“Se pudesse transformava todas as pessoas do mundo em não desconhecidas.”

DAVID GROSSMAN, escritor israelita (1954-), in “A vida brinca comigo”, Ed. Dom Quixote, 2020

(fotos net)




04 março, 2024

Pétala nº 3807

A magia dos diálogos, na narrativa de um dos meus escritores preferidos...


"Posso fazer-te uma pergunta?
Isso já é uma pergunta. Tens mais alguma?

"Está tudo bem contigo?
Não. E contigo?
Não. Mas temos expectativas reduzidas. Isso ajuda."

"Continuas a pensar que há qualquer coisa que não te estou a contar.
Não estou preocupado.
Quer dizer que achas que acabarei por te contar.
As pessoas contam a um estranho no autocarro aquilo que não contam ao cônjuge.
É bastante deprimente, não é?"

“A vida é estranha.
“A quem o dizes. Mas deixa-me dizer-te què mais estranha para uns do que para outros.
Talvez queira dizer que uma pessoa paga pelo que faz.
Creio que isso é uma grande verdade. Acredito que sim.
Ainda assim, acho que certas pessoas acabam por pagar um preço superior à dívida.
‘Tás a falar por ti...?
Não sei. Mas gostava de saber quem é que faz o registo.
Ámen.”

"O que é que os outros julgam ver em nós?”
“... se há algum traço comum no nosso entendimento, é o de que somos seres falhados. Cá no âmago, é isso que sabemos.
Achas que nos detestamos a nós próprios.
Acho. É um castigo insuficiente, claro. Mas sim, acho.
Quer dizer que o mundo é um lugar horrível?
Um lugar horrível.” 

“Talvez sejas somente um acumulador de amarguras.
Eu não sou uma pessoa amargurada…
Bem, alguma coisa serás. O quê? Um tratado sobre a tristeza? Clássico, isso. O terreno da tragédia…”

“Sou um observador da eternidade. 
A eternidade é muito tempo. 
Não me digas.”

CORMAC McCARTHY, escritor americano (1933- Junho 2023), in “O Passageiro”, Ed. Relógio d’Água, 2022)

(Diálogos encontradas nas 424 páginas do livro, aqui alinhados a meu gosto.)



"Não existe ninguém como McCarthy na literatura contemporânea americana."
(The New York Times)


(Foto: PORTUGAL/Mafra - Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, 2023)


26 fevereiro, 2024

Pétala nº 3806

“Quero que me abraces, 
antes que a tristeza envelheça no meu peito.” 
(Graça Pires. in “Poemas escolhidos 1990-2011”)


“A tristeza é um ser concreto, mas a alegria também. Porém, mais concreta do que a alegria e a tristeza, é a dor. De concreta que é, não se pode descrever.” 
LÍDIA JORGE, escritora portuguesa (1946-), in “Misericórdia”, Ed. D. Quixote, 2022

“A dor é aquilo de que a vida é feita. Uma vida sem dor não é vida, não é nada.” 
CORMAC McCARTHY, escritor americano (1933- 2023), in “O Passageiro”, Ed. Relógio d’Água, 2022) 

“A dor que a omissão traz, a dor que o silêncio esconde.” 
“Não é a perda irremediável que me torna triste. É o vazio que me entristece. O vazio, a dor do vazio, a dor.” 
BERNHARD SCHLINK , escritor alemão (1944-), in “A Neta”, Ed. ASA, 2023 

"Às vezes, um homem que está triste deita com a conversa a tristeza pela boca fora. Às vezes, um homem que se encontra a pontos de matar, deita com o falar, o assassínio pela boca fora e já não mata.”
JOHN STEINBECK, escritor norte-americano (1902-68), in “As vinhas da ira”, Ed. Círculo de Leitores, 1981 
Prémio Nobel de Literatura, 1962



(foto Pinterest)