25 março, 2024

Pétala nº 3810

"The art of losing isn’t hard to master"
(Elizabeth Bishop, primeiro verso do poema "One Art", 1976)


“Nascemos e morremos nus. Chegamos e partimos de mãos vazias. Gosto muito do poema de Elizabeth Bishop em que ela descreve a vida como «arte de perder». Tem razão. Perder, desprender, desaprender. Aprender a fazer isso o melhor que possamos. Aprender a desaprender, como o mestre Alberto Caeiro. (…) A vida tem isto de paradoxal: somar por somar redunda num diminuir grotesco. O verdadeiro somar, a ampliação efetiva da vida passa pela aceitação de diminuir, de tornar-se pequeno, de ser o último, de servir.”

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, teólogo e poeta português (1965-) em entrevista a Christiana Martins, publicada na revista "E", do jornal Expresso de 22 Dezembro 2023

Leia o poema de Elizabeth Bishop: aqui.


O GUARDADOR DE REBANHOS

XXI
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamam estrelas e flores.

Versos de Alberto Caeiro, heterônimo de FERNANDO PESSOA poeta português (1888-1935), 
in "Antologia poética", R.B.A. Editores, 1994


(fotos net: flor dente-de-leão)

Desejo-lhe uma Santa e doce Páscoa. 



18 março, 2024

Pétala nº 3809

"O amor! Que imenso mar!"
(Antero de Quental, in "Primaveras românticas")

 

Coisa amar  (excerto)
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor de fixação (excerto)
Há um caminho marítimo no meu gostar de ti.
Há um porto por achar no verbo amar
há um demandar um longe que é aqui.
E o meu gostar de ti é este mar.

MANUEL ALEGRE, poeta e político português (1936-)


Súplica (excerto)
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

MIGUEL TORGA, poeta português (1907-95), in "Poesia completa", Ed. Dom Quixote, 2000


“Andar sem amor pela vida é como (...) fazer-se ao mar sem estrela-guia.”

STENDHALescritor francês (1783-1842) 



(Fotos: PORTUGAL/Porto Santo, 2023)

11 março, 2024

Pétala nº 3808

Pessoa, pessoas, pessoas...


“Será que algumas pessoas não conseguem ver para além daquilo que se lhes coloca à frente?” 

"… as pessoas seguem o seu caminho sem se encontrarem, se o vento do destino não as unir.”

“As pessoas podem amar-se e, no entanto, perder-se.” 

BERNHARD SCHLINK , escritor alemão (1944-), in “A Neta”, Ed. ASA, 2023


“O número de pessoas que conhecemos em profundidade é estranhamente escasso.” 

“Todos somos capazes de pensar em pessoas que usam a simplicidade fabricada ou artificial como modo de passar pelo mundo.” 

JULIAN BARNES, escritor inglês (1946-), in “Elizabeth Finch”, Ed. Quetzal, 2022


“Há pessoas que possuem uma afetividade falsa, pessoas muito pobres de sentimentos que fingem ser afeto. Esses são intitulados «artistas da vida».”

“Se pudesse transformava todas as pessoas do mundo em não desconhecidas.”

DAVID GROSSMAN, escritor israelita (1954-), in “A vida brinca comigo”, Ed. Dom Quixote, 2020

(fotos net)




04 março, 2024

Pétala nº 3807

A magia dos diálogos, na narrativa de um dos meus escritores preferidos...


"Posso fazer-te uma pergunta?
Isso já é uma pergunta. Tens mais alguma?

"Está tudo bem contigo?
Não. E contigo?
Não. Mas temos expectativas reduzidas. Isso ajuda."

"Continuas a pensar que há qualquer coisa que não te estou a contar.
Não estou preocupado.
Quer dizer que achas que acabarei por te contar.
As pessoas contam a um estranho no autocarro aquilo que não contam ao cônjuge.
É bastante deprimente, não é?"

“A vida é estranha.
“A quem o dizes. Mas deixa-me dizer-te què mais estranha para uns do que para outros.
Talvez queira dizer que uma pessoa paga pelo que faz.
Creio que isso é uma grande verdade. Acredito que sim.
Ainda assim, acho que certas pessoas acabam por pagar um preço superior à dívida.
‘Tás a falar por ti...?
Não sei. Mas gostava de saber quem é que faz o registo.
Ámen.”

"O que é que os outros julgam ver em nós?”
“... se há algum traço comum no nosso entendimento, é o de que somos seres falhados. Cá no âmago, é isso que sabemos.
Achas que nos detestamos a nós próprios.
Acho. É um castigo insuficiente, claro. Mas sim, acho.
Quer dizer que o mundo é um lugar horrível?
Um lugar horrível.” 

“Talvez sejas somente um acumulador de amarguras.
Eu não sou uma pessoa amargurada…
Bem, alguma coisa serás. O quê? Um tratado sobre a tristeza? Clássico, isso. O terreno da tragédia…”

“Sou um observador da eternidade. 
A eternidade é muito tempo. 
Não me digas.”

CORMAC McCARTHY, escritor americano (1933- Junho 2023), in “O Passageiro”, Ed. Relógio d’Água, 2022)

(Diálogos encontradas nas 424 páginas do livro, aqui alinhados a meu gosto.)



"Não existe ninguém como McCarthy na literatura contemporânea americana."
(The New York Times)


(Foto: PORTUGAL/Mafra - Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, 2023)