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16 maio, 2021

Pétala nº 3273

Sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como aqueles que importunavam Edgar Allan Poe; também não sou um dos ectoplasmas dos filmes de Hollywood. Sou um homem de substância, de carne e osso, músculos e líquidos, e pode mesmo dizer-se que possuo uma mente. Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as pessoas se recusam a ver-me. (...)
Não sou nenhuma aberração da natureza nem da história. Não me envergonho de os meus avós terem sido escravos. Só me envergonho de mim próprio por em certa altura me ter envergonhado.” 

Primeiro parágrafo do romance "Homem invisível", de RALPH ELLISON, escritor norte-americano (1914-1994)

18 abril, 2021

Pétala nº 3245

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados. O doutor Juvenal Urbino sentiu-o assim que entrou na casa, ainda mergulhada em penumbra, onde fora de urgência para tratar um caso que, para ele, já tinha deixado de ser urgente há muitos anos. O refugiado antilhano Jeremiah de Saint-Amour, inválido de guerra, fotógrafo de crianças e o seu mais tolerante adversário de xadrez, tinha-se posto a salvo das inquietações da memória com um defumador de cianeto de ouro.”

Primeiro parágrafo do romance "O amor nos tempos da cólera", de GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, escritor colombiano (1927-2014)
Prémio Nobel de Literatura, 1982