24 fevereiro, 2025

Pétala nº 3846


"… o mundo está sempre a morrer, dia após dia

“O mundo está em constante movimento e vibração. A paisagem é a maior das ilusões (…) recordada como se fosse um quadro. A memória cria postais ilustrados, mas não compreende o mundo de modo nenhum. É por isso que a paisagem é tão vulnerável à disposição daqueles que a contemplam. O ser humano vê, na paisagem, os seus próprios momentos, interiores e passageiros. Para onde quer que olhe, vê-se apenas a si próprio. Ponto final.”

OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-), in “Casa de Dia, Casa de Noite”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022
Prémio Nobel de Literatura, 2018


“Há dias em que me sinto tão pouco ligada à Terra que as amarras que me prendem ao planeta são finas como teias, como fios de açúcar. Uma rajada mais forte de vento podia soltar-me completamente e eu seria levada pelas correntes como uma semente de dente-de-leão.”

“Suponho que uma das razões pelas quais continuaremos todos a existir ao longo dos anos que nos foram atribuídos nesse vale de lágrimas verde e azul, é que há sempre, por mais remota que possa parecer, a possibilidade de mudança.”

GAIL HONEYMAN, escritora inglesa (1972-) in “A Educação de Eleanor”, Porto Editora, 2017


"O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nem consolo. Nenhum olhar."

JOSÉ LUIS PEIXOTO, escritor português (1974-), in "Nenhum olhar", Ed. Quetzal, 2000

(Fotos Teresa Dias - CUBA/Varadero, 2023)


17 fevereiro, 2025

Pétala nº 3845

AMOR e GUERRA, humor e tragédia, são os ingredientes essenciais de “O Adeus às Armas”, um clássico da literatura universal, o terceiro romance de Ernest Hemingway.


“Quando as pessoas defrontam o mundo com tanta coragem, o mundo só pode quebrá-las matando-as, e por isso, é claro, mata-as. O mundo quebra toda a gente (...) Mas àqueles que não consegue quebrar, mata-os. Mata os bons, os muito doces, os muito corajosos, imparcialmente.”


"- Estou farta de cabelo comprido. É muito incómodo de noite, na cama.
- Mas eu gosto dele.
- Não gostavas dele curto?
- Talvez. Mas gosto dele como está.
- Curto talvez ficasse bem. Então ficávamos ambos iguais. Oh, querido, eu queria tanto ser tu!
- E és. Nós somos um só.
- Bem sei. De noite somos.
- As noites são belas!"


“- Está a chover com toda a força.
- E hás-de amar-me sempre, é verdade?
- Hei-de.
- E a chuva não fará diferença?
- Não.
- Ainda bem. Porque eu tenho medo à chuva.
- Porquê?
- Não sei, querido. Sempre tive medo à chuva.
- Eu gosto dela.
- Gosto de passear à chuva. Mas é mau para o amor.
- Eu hei-de-gostar sempre de ti.
- Hei-de amar-te quer chova, quer neve, quer saraive e… que mais é?
- Não sei. Creio que estou com sono.
- Dorme, querido, hei-de amar-te de qualquer maneira.
- Não tens de facto medo à chuva, pois não?
- Quando estou junto de ti não tenho.
- Porque tens medo dela?
- Não sei.
- Diz.
- Não quero.
- Diz.
- Não.
- Diz.
- Está bem. Tenho medo à chuva porque às vezes vejo-me morta no meio dela.
- Não!
(...)"

ERNEST HEMINGWAY, escritor norte-americano (1899-1961), in “O adeus às armas”, Ed. Livros do Brasil, 2001 
 Prémio Nobel de Literatura, 1954

(fotos: PIXABAY)


10 fevereiro, 2025

Pétala nº 3844


“Sempre sozinha, sempre na escuridão.”

“Depois de nos habituarmos a estar sozinhos, torna-se normal.”

"- Já alguma vez pensaste que no interior do teu corpo reina a escuridão total?"

"A escuridão ultrapassa os nossos corpos. Somos feitos de escuridão, viemos ao mundo com ela e ela cresce connosco ao longo da nossa vida."

“Há pessoas, as mais fracas, que temem a solidão. O que não compreendem é que há nela algo de muito libertador; assim que percebemos que não precisamos de ninguém, podemos cuidar de nós próprios. É precisamente essa a questão: é melhor cuidarmos só de nós próprios. Não podemos proteger as outras pessoas, por mais que tentemos. Tentamos, e falhamos, e o mundo desmorona-se à nossa volta (…).”

GAIL HONEYMAN, escritora inglesa (1972-) in “A Educação de Eleanor,  Porto Editora, 2017


“… quanto mais uma pessoa se sente solitária, menos capacidade tem de navegar pelas correntes sociais. A solidão cresce à sua volta, como bolor, como cotão, um profilático que inibe o contacto, por mais que esse contacto seja desejado. A solidão desenvolve-se por acreção, estende-se e perpetua-se a si própria. Depois de instalada, não é de forma alguma fácil de desalojar.”

OLÍVIA LAING, The Lonely City, citada por GAIL HONEYMAN, in “A Educação de Eleanor”.


"A EDUCAÇÃO DE ELEANOR"
 
«Um livro que tem tanto de perspicaz e de sério quanto de divertido e de cativante.»
(The Observer)

Aconselho vivamente a leitura deste magnífico primeiro romance. Não desista nas primeiras páginas. O melhor vem nas páginas seguintes e mantém-se até ao final, inesperado e surpreendente.

(Fotos: PORTUGAL/ Cascais)

03 fevereiro, 2025

Pétala nº 3843

"Tem de haver poesia, mesmo nos tempos mais sombrios..."
(Zbigniew Herbert)


Se vais fazer uma viagem que seja uma longa viagem
aparente deambulação sem rumo a tactear
para poderes conhecer com o olhar e o tacto a aspereza da terra
e medir-te com o mundo em toda a tua pele
(...)
Se acaso souberes algo silencia o teu saber
estuda de novo o mundo qual filósofo jónico
saboreia a água e o fogo o ar e a terra
eles continuarão a existir quando tudo tiver passado
a viagem prosseguirá embora já não seja a tua
(...)
Descobre a insignificância da fala o poder régio do gesto
a inutilidade dos conceitos a pureza das vogais
com as quais tudo se pode exprimir tristeza alegria fascínio raiva
mas não sintas raiva
aceita tudo
(...)
Assim a haver viagem que seja uma longa viagem
verdadeira viagem da qual não se regressa
réplica do mundo viagem elementar
diálogo com os elementos da natureza pergunta sem resposta
pacto forçado após a batalha
grandiosa reconciliação
 
ZBIGNIEW HERBERT, poeta e ensaísta polaco (1924-98), versos do poemaA viagem”, in “POESIA QUASE TODA Ed. Cavalo de Ferro, 2024

Leia sobre o poeta aqui .




(fotos: PIXABAY)


27 janeiro, 2025

Pétala nº 3842

"O tempo separa aqueles que se amam..."
(Vzlérie Perrin, in "TRÊS")


"Nunca mais disseram «amo-te» um ao outro. O amor tornara-se uma deficiência oculta. 

Eram agora pessoas tão diferentes que poderiam até mudar de nome e apelido, ir ao registo civil e preencher o seguinte requerimento: «Já não somos as pessoas que éramos. Solicitamos a alteração dos nossos dados pessoais». 
O passar dos anos tudo muda, excepto a saudade.

Como é o mundo quando a vida se torna saudade? Parece que é feito de papel, desfaz-se entre os dedos, desmorona-se.
Cada movimento, observa-se a si próprio, cada pensamento contempla-se a si próprio, cada sentimento tem início, mas não acaba, tornando-se o próprio objecto da saudade ilusório e irreal.
Só a saudade é verdadeira, viciante, impositiva – estar onde não se está, ter o que não se tem, tocar quem não existe. Este estado tem uma natureza variável e contraditória em si mesma. É a quintessência da vida e é contra a vida. Estranha-se na pele, chega aos músculos e aos ossos, que, doravante, começam a existir dolorosamente."

OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-), in “Casa de Dia, Casa de Noite ”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022
Prémio Nobel de Literatura, 2018


“- Pensava que as pessoas casadas conversavam sobre tudo.
- De certeza que algumas falam.”

MICHAEL CUNNINGHAM, escritor norte-americano (1952-), in “dia”, Ed. Gradiva, 2024


Fotos de Teresa Dias: 
1 - PORTUGAL/Mafra, 2023
2 - PORTUGAL/Beja, 2022


20 janeiro, 2025

Pétala nº 3841


"A forma como Israel esmagou Gaza é imperdoável."

"Tudo é demasiado extremo, demasiado avassalador."

"... as palavras deixaram de conseguir conter a realidade."

"A última vez que o vi em Lisboa disse que, como escritor, preferia não ter de falar de política. É possível evitar o assunto nestes dias?
Não, é impossível, A política está em todo o lado. A realidade brutal está em todo o lado. O que temos estado a viver nestes 13 meses é para além do acreditável e afeta cada mínima parte da nossa vida. Escrever tornou-se também muito difícil. (…)

Então, se o silêncio já não é uma opção, a escrita também não é…   ?
O silêncio é impensável. Mas sabe, seja o que for que eu disser, posso contradizer-me de imediato. Esta é a natureza da situação: tudo o que possa ser dito sobre ela é certo e verdadeiro, mesmo tratando-se de visões contrárias. Estou também a tentar escrever sobre esta realidade, para mim mesmo, porque preciso de compreender certas coisas através do exercício da escrita. Sinto-me confundido. E as pessoas, em geral, estão deprimidas (…) invadiu-nos um sentimento geral de depressão, os nossos corações estão despedaçados. Todas as pessoas que conheço estão não só melancólicas como profundamente tristes. Eu estou profundamente triste. Creio que não há outra saída após termos conhecido o Mal, a pura maldade daquilo que os seres humanos podem fazer. E, quando digo isto, refiro-me a tudo o que se está a passar, a começar pelo massacre de 7 de outubro.

A guerra desencadeada por Israel é também sem precedentes. Como é acordar todos os dias rodeado dessa violência? 
Significa não ser capaz de viver em paz, e a saber que a partir de agora isso será uma miragem. Que mesmo que a paz seja possível entre Israel e a Palestina, o que há anos defendo e desejo profundamente, não haverá tranquilidade nem o sentimento de estabilidade. Há uma espécie de estreiteza da alma que tomou conta da vida. Uma pessoas só quer encolher-se e proteger-se e proteger aquela superfície da sua alma que entra em contacto com a realidade.

O que vai ficar destes escombros? Como se sai daqui?
Não se sai. Temos sempre de recordar uma coisa: nós e os palestinianos vamos viver lado a lado até à eternidade. Que tipo de paz se pode fazer com um vizinho com quem nos comportamos deste modo? E que tipo de paz pode ele esperar de nós se não reconhece a nossa existência? Estamos apenas a minimizar as hipóteses de ter alguma normalidade no futuro."

"Estamos a sentir e a sofrer, mas também estamos a pensar. Não podemos renunciar a pensar."


DAVID GROSSMAN, escritor israelita e activista pela paz (1954 -), excertos 
da entrevista a Luciana Leiderfarb, revista “E", jornal Expresso, 3 janeiro 2025

(fotos net)


13 janeiro, 2025

Pétala nº 3840


A nossa vida é um instante em aberto. Somos chamados a cultivá-la, sim, com a paciente humildade que um jardineiro reserva ao seu jardim. Este trabalha de sol a sol, com todo o afinco, mas sabe que a semente rebenta sem ele saber como. Felizes aqueles que, em relação à vida, se alimentam do espanto interminável: esses, e só esses, sentirão a passagem inacabada do tempo como uma promessa.”
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, teólogo e poeta português (1965-) in “Uma beleza que nos pertence”, Ed. Quetzal, 2019

“… o mundo não é um conto de fadas (…) Não, a vida é sacrifício, a vida é entrega, a vida é atitude. Há algo na sociedade de hoje que, de alguma maneira, nos inquieta.”
CARLOS BUNGA, artista plástico português (1976-) in entrevista a Isabel Salema, revista Ípsilon, jornal Público, 4 Outubro 2024

“Não aprendi nada com a existência. O que se aprende com a vida são histórias que contamos a nós próprios. Fim das narrativas. Quando desaprendemos mais do que aprendemos, batemos no fundo e isso dói. Levantamo-nos porque é demasiado cansativo permanecermos deitados.”
Há que caminhar para manter o mundo."
FRÉDÉRIC GROS, filósofo, professor, escritor francês (1965-), in "CAMINHAR uma filosofia" (2009), Ed. Antígona, 2024



Desejo-lhe um 2025 cheio de... VIDA!


(Fotos PIXABAY)


16 dezembro, 2024

Pétala nº 3839

Boas Festas!


HOSSANA

Junquem de flores o chão do velho mundo:
Vem o futuro aí!
Desejado por todos os poetas
E profetas
Da vida,
Deixou a sua ermida
E meteu-se a caminho.
Ninguém o viu ainda, mas é belo.
É o futuro...

Ponham pois rosmaninho
Em cada rua,
Em cada porta, em cada muro,
E tenham confiança nos milagres
Desse Messias que renova o tempo.
O passado passou.
O presente agoniza.
Cubram de flores a única verdade
Que se eterniza!

MIGUEL TORGA, poeta português (1907-95), in "Poesia completa", Ed. Dom Quixote, 2000


“Somos ramos da mesma videira, somos vasos comunicantes: o bem e o mal que realiza cada um reverte-se sobre os outros. Na medida em que permanecemos em Deus, aproximamo-nos dos outros e, na medida em que nos aproximamos dos outros, permanecemos em Deus.”
PAPA FRANCISCO (Jorge Mario Bergoglio), 266º Papa da Igreja Católica, eleito em 13 de Março de 2013, natural da Argentina (1936-)

“Somos todos seres humanos e estamos todos em perigo. Temos de nos compreender e amar rapidamente.”
SÁNDOR MÁRAI, escritor húngaro (1900-89), in “Libertação” (escrito entre Julho e Setembro de 1945), Ed. D. Quixote, 2023


"A oração habita cada um dos nossos sentidos"

"Rezar é sempre conspirar por um acontecer."

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, teólogo e poeta português (1965-) in “Uma beleza que nos pertence”, 
Ed. Quetzal, 2019


Desejo-lhe um Feliz Natal e 
um Novo Ano cheio de 
Saúde, Amor, Paz e Alegria.


Luís, muito obrigada por mais uma estrela sua.
Tenha um Feliz Natal e um Bom Ano Novo.


(Volto no dia  13 de Janeiro. Beijos e Abraços.)


(Fotos: PIXBAY)

09 dezembro, 2024

Pétala nº 3838


"Metade da Vida Passa-se na Escuridão
É assim mesmo, quer se saiba disso ou não. Quer se aceite isso ou não. Quer se concorde com isso ou não. Mas a maior parte das pessoas só se lembra da noite por causa das insónias. Quando se dorme como uma pedra, não se sabe sequer que é noite.

A noite não é negra, como se costuma dizer. Tem luzes suaves que fluem do céu para as montanhas e para os vales. A Terra também brilha. É um brilho frio, acinzentado, levemente fosforescente como o brilho dos ossos nus e da podridão. Durante o dia, não se vê esse brilho, nem durante as noites claras de luar, nem nas cidades e aldeias iluminadas. A luz da Terra só se vê nas verdadeiras trevas.

Além disso, existem ainda estrelas e a Lua. Assim sendo, a noite é clara.”

OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-), in “Casa de Dia, Casa de Noite ”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022 - Prémio Nobel de Literatura, 2018


“É preciso que o negro se acentue para
que a primeira estrela apareça.”

"A minha avó ensinou-me muito cedo como apanhar estrelas:
basta pôr de noite uma vasilha com água no meio do pátio,
para as vermos a nossos pés."

VALÉRIE PERRIN, escritora francesa (1967-), in "A breve vida das flores", Ed. Presença, 2022


“Há noites em que morremos de tristeza,
à espera que uma estrela nos rebente no olhar.”

GRAÇA PIRES, poetisa portuguesa (1946-), in "Poemas Escolhidos 1990-2011"
(fotos PIXABAY)


02 dezembro, 2024

Pétala nº 3837


“Passamos muito tempo ouvindo o que as pessoas dizem e raramente prestamos atenção ao que elas não dizem.”

“Nas culturas asiáticas, o silêncio denota reflexão profunda e nelas o que não é dito pode ser tão ou mais importantes do que o que é dito.”

CARLOS BUNGA, artista plástico português (1976-) in entrevista a Isabel Salema, revista Ípsilon, jornal Público, 4 Outubro 2024


"O silêncio é uma disciplina do coração: calar os pensamentos, as imagens, as maledicências, as superficialidades." 

"O silêncio é um caminho. Não basta, por exemplo, estarmos calados para estar em silêncio. Podemos estar calados e o rumor ser ensurdecedor. Há uma qualidade de silêncio que é uma conquista, que é um processo em que nós entramos."

"De facto, o mundo, este mundo que nos habituamos a identificar como estridente caixa sonora que nunca dorme, é atravessado por um fio de silêncios à espera de serem escutados."

"Como é que percebemos que duas pessoas que não conhecemos são amigas? Pela forma como conversam. Mas mais ainda porque nitidamente abraçam, com serenidade e alegria, o silêncio da outra."

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, teólogo e poeta português (1965-) in “Uma beleza que nos pertence”, Ed. Quetzal, 2019


“- Devíamos ser mais amigas. Não achas?
- Claro… Mas nós não gostamos assim tanto uma da outra.
- Não sei porque é que isso nos deve impedir de sermos amigas. Quantos amigos gostam realmente uns dos outros?”

MICHAEL CUNNINGHAM, escritor norte-americano (1952-), in “dia”, Ed. Gradiva, 2024



(fotos PIXABAY)


25 novembro, 2024

Pétala nº 3836


- Não é preciso sair de casa para conhecer o mundo (…)
Nas viagens, é preciso cuidar de si mesmo para seguir em frente, olhar para dentro e ver qual é o nosso lugar no mundo. Uma pessoa está focada em si mesma, pensa em si, cuida de si. Durante a viagem, a pessoa acaba sempre por se encontrar consigo mesma, como se isso fosse o objectivo. Na nossa própria casa, nós existimos pura e simplesmente, não é preciso lutar contra nada, nem nada conquistar. Não é preciso estar atento às ligações dos comboios, aos horários dos transportes, não se procuram arrebatamentos, nem decepções. Podemos pôr-nos à margem e, nessa altura, é quando vemos mais.

OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-),  in Casa de Dia, Casa de Noite ”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022 
 Prémio Nobel de Literatura, 2018


“A minha casa não tem portas nem janelas, não tem escadas nem pátio, não tem tecto nem quartos, não tem mesas ou armários, não tem cadeiras ou quadros.
A minha casa são os que amo.”

CARLOS BUNGA, artista plástico português (1976-) in entrevista a Isabel Salema, revista Ípsilon, jornal Público, 4 Outubro 2024


"A vossa casa é o vosso corpo em ponto grande.
Cresce ao sol e dorme na quietude da noite;
e tem sonhos.
A vossa casa não sonha?

KHALIL GIBRAN, citado por OLGA TOKARCZUKin Casa de Dia, Casa de Noite 

18 novembro, 2024

Pétala nº 3835


“Há as lembranças, o presente e as nossas vidas anteriores que mudam de cheiro. Quando se muda de vida, muda-se de cheiro.

A infância tem o do alcatrão, de uma câmara de ar e do algodão-doce, do desinfetante das salas de aula, das chaminés das lareiras que exalam o hálito das casas nos dias de frio, do cloro das piscinas municipais, da transpiração agarrada à roupa nas filas dois a dois à saída do ginásio, das pastilhas elásticas na boca, da cola que faz fio nos dedos, das gomas entaladas entre os dentes, de uma árvore de Natal plantada no coração.


A adolescência tem o odor da primeira passa, de um desodorizante almiscarado, de uma fatia de pão com manteiga numa caneca de chocolate quente, do uísque-cola e das caves transformadas em salas de baile, do corpo que deseja, da água de colónia, do gel para o cabelo, do champô de ovo, do batom, de restos de detergente numas calças de ganga.


As vidas posteriores, aquela da écharpe esquecida pelo primeiro desgosto amoroso.


E depois há o verão. O verão pertence a todas as lembranças. É intemporal. É o cheiro que é mais duradouro. Que se agarra às roupas. Que se busca toda a a vida. Os frutos mais doces, a brisa marítima, as bolas de Berlim, o café escuro, o protector solar, o pó de arroz das avós. O verão pertence a todas as idades. Não há infância nem adolescência. O verão é um anjo."

VALÉRIE PERRIN, escritora francesa (1967-), in "TRÊS", Ed. Presença, 2023



(fotos PIXABAY)

17 novembro, 2024

Pétala sem número

 
Ter um Pai! É ter na vida
Uma luz por entre escolhos; 
É ter dois olhos no mundo
Que veem pelos nossos olhos!

Ter um Pai! Um coração
Que apenas amor encerra,
É ver Deus, no mundo vil,
É ter os céus cá na terra!
(...)
Ter um Pai! Um santo orgulho
Pró coração que lhe quer
Um orgulho que não cabe
Num coração de mulher!

Embora ele seja imenso
Vogando pelo ideal,
O coração que me deste
Ó Pai bondoso é leal!

Ter um Pai! Doce poema
Dum sonho bendito e santo
Nestas letras pequeninas,
Astros dum céu todo encanto!

FLORBELA ESPANCA, poetisa portuguesa (1894-1930)


Parabéns, pai!
Saudade eterna.

11 novembro, 2024

Pétala nº 3834


“O céu aqui é de um azul impossivelmente penetrante e às vezes canta…”

“Aqui o céu canta durante o dia. É preciso ouvi-lo.”


“… quando o céu canta durante o dia assemelha-se muito mais gregoriano do que a qualquer outra coisa, embora isso não seja exactamente correcto. É uma espécie de ribombar musical, é profundo e ocorre-me sonoro mas também não é bem isso. É reverente à sua maneira ainda que não suplicante, é como se Deus cantasse para si próprio…”


“Quem é que não tem medo da noite? Não sei bem como dizer isto, porém, as noites parecem uma gigantesca semi-escuridão iluminada, à qual nos podemos juntar, da qual podemos fazer parte.”

“Quem é que não se sente desamparado? Não será melhor reconhecê-lo? Não deveríamos substituir as acusações por um reconhecimento mais circunspecto e desgastado pelo mundo. Amamo-nos uns aos outros porque não sabemos amar-nos verdadeiramente a nós mesmos; dependemos uns dos outros porque não sabemos depender de nós próprios.”

MICHAEL CUNNINGHAM, escritor norte-americano (1952-), in “dia”, Ed. Gradiva, 2024


(Fotos: ESPANHA/Isla Canela, 2024)

04 novembro, 2024

Pétala nº 3833


CARTA À MINHA FILHA

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.
(…)
E o que eu queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.

E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.
(…)

ANA LUÍSA AMARAL, poetisa, tradutora, professora portuguesa (1956-2022), versos do poema "Carta à Minha Filha"


PARABÉNS FILHOTA!
Mil beijos e abraços carregados de Amor. 💚💛



(fotos PIXABAY)

28 outubro, 2024

Pétala nº 3832

Reviravoltas da Vida


“Gosto da minha vida… Contra ventos e marés.”

“… não encontrei na vida maior mistério do que eu próprio”.

“Seja lá como for que imaginamos o que vai ser a nossa vida, o mais provável é não acertarmos. Concordas?"

“Quando foi a última vez que ‘tiveste sozinho. A ver a noite cair. A ver o dia nascer. A pensar na tua vida. A pensar nos lugares onde ‘tiveste e onde queres ir. Se houve uma razão pra tudo o que fizeste.”

CORMAC McCARTHY, escritor americano (1933- 2023), in “O Passageiro”, Ed. Relógio d’Água, 2022)


"A vida, que é uma fieira de sofrimentos de intensidade crescente, acelera até ao fim, o sofrimento extremo."
LEV TOLSTÓI, escritor russo (1828-1910), in “A Morte de Ivan Iliitch” (1886), Ed. Presença, 2024

“A vida é tão curta e o ofício de viver tão difícil, que, quando começamos a aprendê-lo, temos de morrer.”
ERNESTO SÁBATO, escritor, artista plástico argentino (1911-2011)

"Morremos independentemente daquilo que comemos, daquilo que fazemos, daquilo que pensamos. Tudo indica que a morte é um momento mais natural do que a vida."
OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-), in “Casa de Dia, Casa de Noite ”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022
Prémio Nobel de Literatura, 2018


"Quanta tristeza
Há nesta vida
Só incerteza
Só despedida..."

VINICIUS DE MORAES,  poeta e compositor brasileiro (1913-80)

(fotos net)

21 outubro, 2024

Pétala nº 3831


"A exploração espacial e um olhar cósmico poderiam ser a solução para a paz mundial?
Sim. Assim que tivermos um autocarro que possamos enviar para o espaço, deveríamos reunir todos os líderes mundiais – basta colocá-los no autocarro, não apenas em órbita da Terra, mas enviá-los para a Lua. O que faríamos era - isto parece maldade mas é por uma boa causa – dizer: “Queremos que tenham uma perspectiva cósmica do mundo, percebendo que estamos todos juntos neste mundo. A essa distância, não se consegue sequer ver as fronteiras dos países." Diríamos: “Precisamos que todos vocês reconheçam isso e, depois, trazemos-vos de volta à Terra!" (...)  Talvez esse seja o melhor caminho para a paz mundial: pegar em todos os líderes e dar-lhes uma injecção de uma perspectiva cósmica."

"O mundo seria um lugar melhor se todos fossemos cientistas?
Não, não podemos ser todos cientistas. Precisamos de artistas e de músicos e precisamos de terapeutas para nos ajudarem a ultrapassar (os problemas). Precisamos de alguns cientistas porque, caso contrário, o progresso da civilização pararia – “Progresso” significa a nossa saúde, riqueza, segurança e as coisas que nos chegam através do trabalho da ciência, tecnologia, engenharia e matemática."
“… há pessoas que dizem: Não confio na ciência. Mas, entretanto, as pessoas estão vivas por causa da ciência.”

… tem esperança no futuro da civilização?
Tenho esperança no futuro da civilização, desde que existam forças racionais a operar para analisar os pensamentos e sentimentos das pessoas. Toda a gente tem algum preconceito, de certeza, mas tomem consciência disso para não começarem a criar leis que suprimam as liberdades dos outros.”

NEIL DE GRASSE TYSON, astrofísico, escritor e divulgador científico norte-americano (1958-), excertos da entrevista a Filipa Almeida Mendes, revista Ípsilon, jornal Público,  22 dezembro 2023


(fotos net)