(Itamar Vieira Júnior, in Torto arado")
“Meu pai não tinha letra, nem matemática, mas conhecia as fases da lua. Sabia que na lua cheia se planta quase tudo, que mandioca, banana e frutas gostam de plantio na lua nova, que na lua minguante não se planta nada…
Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico à procura do coração.”
“Meu pai havia nascido quase trinta anos após declararem os negros escravos livres, mas ainda cativo dos descendentes dos senhores de seus avós. (...) Ele nasceu no meio de um charco, porque não haviam permitido que sua mãe deixasse de trabalhar naquele dia.”
ITAMAR VIEIRA JUNIOR, geógrafo, doutor em Estudos Étnicos e Africanos, escritor brasileiro (1979-), in “Torto arado” (Prémio LeYa, 2018), Ed. LeYa, 2019


