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21 março, 2021

Pétala nº 3217

 
Nada tão silencioso como o tempo 
no interior do corpo. Porque ele passa 
com um rumor nas pedras que nos cobrem, 
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores 
que são os nossos cabelos imaginários. 
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve. 
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro 
ignoto, numa órbita apartada, 
o tempo caladamente persegue 
o sangue que se esvai sem som. 
Entre o princípio e o fim vem corroer 
as vísceras, que ocultamos como a Terra. 
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros. 
Mesmo os ouvidos cantam até à noite 
ouvindo o amor de cada dia. 
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr 
de água, e as lágrimas da angústia 
são estridentes quando buscam o eco. 
Mas nós sentimos dentro do coração que somos 
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos, 
foi depois de termos amado ontem. 
O tempo é silencioso e enigmático 
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso, 
o tempo faz e desfaz a vida.

Poema sem título, de FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO, escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa (1938-2007)


(Hoje, Dia Mundial da POESIA.)

(foto net)